Passo Zero – Minhas Razões

Desde muito jovem desenvolvi um grande interesse por longas caminhadas e pela prática de montanhismo. Iniciando sempre por meu próprio bairro e redondezas, depois de explorar o que estava ao meu alcance direto, andei muito a pé, peguei diversas caronas, e também viajei bastante de ônibus para alcançar outros locais de acampamento e pequenas escaladas, aqueles mais distantes de casa, antes de obter a primeira licença para dirigir motocicletas e automóveis.

Infelizmente, em minha infância e adolescência, nunca tive minha própria bicicleta, o que teria ampliado um pouco mais o meu raio de ação. Tive que me contentar em pedalar, apenas por distâncias curtas, as “magrelas” de alguns dos meus amigos nos distantes anos 1960. Hoje, o que me dá muito prazer, pedalo com alguma frequência em uma ótima bicicleta que era de meu filho e que ficou comigo quando ele se mudou para outra cidade. Exploro assim, também em duas rodas, quando e onde é possível, as ruas e caminhos da nossa bela cidade do Rio de Janeiro.

Talvez, por causa da pequena frustração experimentada pela falta de uma bicicleta na infância, meu primeiro salário se transformou em uma motocicleta que, essa sim, expandiu bastante meus horizontes de aventuras. Em parte facilitado pela natureza das minha primeira carreira profissional, em parte por minha própria conta, meu desejo de explorar o mundo já me levou a empreender viagens, utilizando todos os meios de transporte possíveis, a centenas de cidades localizadas não só no nosso país de dimensões continentais, o Brasil mas, também, nas Américas, Europa, Ásia e África.

No final do ano passado, depois do gentil convite de um bom amigo, tomei a decisão de realizar a pé o “Caminho de Santiago de Compostela”, mais especificamente o percurso que é conhecido como o “Caminho Francês”. Em setembro e outubro de 2015, a partir de Saint Jean de Pied de Port, pequena localidade aos pés dos Montes Pirineus, ainda em território francês, percorri, ao longo de 33 dias, com uma interrupção de uma semana para um deslocamento até a Alemanha para tratar de assuntos familiares, os cerca de 800 quilômetros até Santiago de Compostela, sendo essa jornada em sua quase totalidade em território espanhol. Fiquei ausente de casa e do nosso país, nesse triste momento que o Brasil atravessa e que envergonha a todas as pessoas que valorizam a honestidade, a liberdade e a democracia, ao longo de 47 dias.

Meu desejo de registrar e compartilhar as belas paisagens desse caminho tradicional, e também o de relatar algumas experiências pessoais, encontros e desencontros que inevitavelmente ocorreram ao percorrê-lo, além de compartilhar algumas dicas do processo de preparação para essa aventura, motivaram a criação deste Blog que denominei “Um passo de cada vez”.

Desejo que os visitantes, especialmente aqueles interessados nos temas relacionados a viagens, caminhadas, montanhismo e fotografia, possam encontrar leitura prazerosa e, quem sabe, de alguma utilidade para suas próprias jornadas pessoais.

Neste primeiro momento, compartilho, além do meu atual ponto de partida para cada uma dessas andanças no Jardim Oceânico – Barra da Tijuca, o belo poema de Antônio Machado que encontrei há alguns anos atrás em um livro sobre gestão, local improvável para delicadezas poéticas. Trata-se, no meu entendimento, de uma bela reflexão sobre a construção do próprio futuro, ser senhor do próprio destino, e se aproveitar oportunidades que, caso perdidas, se fecham como as esteiras no mar, depois da passagem do navio. Esse livro de gestão, curiosamente, me foi presenteado pelo mesmo amigo que agora me convidou para acompanha-lo no Caminho Francês.

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar.

Ao andar se faz caminho,
e ao olhar para trás
se vê a trilha que nunca
se há de voltar a pisar.

Caminhante não há caminho,
senão esteiras no mar.

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.

Antonio Machado (1875-1939), poeta espanhol em “Proverbios Y Cantares”
Instruções de utilização: Assistir vídeo artesanal com o texto do poema
Mapa do Google Maps com meu atual ponto de partida para cada uma dessas andanças

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Uma resposta em “Passo Zero – Minhas Razões

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